quinta-feira, 2 de agosto de 2007

That's the Spirit!

Numa ilha do Mar do Norte, nas duas margens dum grande rio, quando este se prepara para se dirigir para o mar, onde a extensa planície faz uma ligeira cova, tomou em tempos forma, uma povoação, hoje uma grande metrópole que, por acaso ou circunstância, atraiu e atrai populações migrantes de toda a ilha, das ilhas circundantes, do continente que lhe está próximo e mesmo de todo o mundo, e que no entanto, mantém uma identidade própria, bem definida - embora difícil de definir com palavras. O continente chama-se Europa, essa ilha chama-se Inglaterra, o rio é o Tamisa, e a cidade de que vos falo, é Londres.
As suas ruas, como os seus céus e as águas do rio, são quase sempre de um tom de cinzento sujo. (Não se infira no entanto, que haja mais ou menos sujidade do que em qualquer outro lado). A briza sopra um cheiro a rio e docas antigas, pelas suaves colinas sobranceiras. Colinas? Ligeiras elevações de terreno que nem de colina merecem o nome - mas os habitantes chamam-lhes "hills", com pompa e orgulho.

Talvez o que melhor defina Londres é a sua multi-culturalidade, o seu "melting-pot" de todas as culturas do mundo; mas dizer isso é ficar aquém duma definição concreta. Seja o que fôr que defina a cultura inglesa urbana, nomeadamente da sua capital, sejam quais forem os elementos que compõem o propalado "Spirit of London", esteja ou não ameaçado pelo multi-culturalismo, este, já é parte integrante do "spirit".
Levando um passo adiante o multi-culturalismo, ele transformou-se em universalismo. Não, não se trata da malfadada globalização.
As ruas, as pedras, os telhados, os cheiros, as luzes, as sombras, alguma da sonoridade, da capital inglesa, constituem o que poderia ser definido como um típico tecido urbano humano, com as marcas do tempo deixadas pelas épocas históricas que assolaram a europa, desde o Império Romano, até aos nossos dias. Com o seu lado industrial e impessoal, mas também, com o seu lado humano. E mesmo que diferente ou específico - tanto mais humano. Com um cheiro a liberdade que alguns invejosos gostariam de eliminar. Com construção de betão e de pedra, mas com seus parques, e jardins, e relvados. Com clubes e condomínios fechados, mas com seus concertos e museus abertos ao povo. Com sua música de rua. Com turistas de todas as proveniências. Com comércio aguerrido, mas não agressivo. Com o melhor de todas as gastronomias do mundo. Com bêbados quezilentos. Com a rainha por vizinha. (Adeus, Betty!) Com a sua cordialidade e o seu orgulho, pompa e circunstância. Com o seu humor. Com o seu bairrismo. Com suas histórias carpidas da História que se derrama de cada esquina e de cada recanto.
Suas chaminés de fuligem ("oh, roofs of Chelsea", como dizia o poetinha) e seus edifícios de vidro cristalino. Seus imponentes relógios de rua e essa mania de conduzir do lado errado, argumentando que é o lado certo, pois é o lado da espada!
(Essa é a explicação dada por alguns historiadores, confirmada por um taxista de Londres - que melhor autoridade? - para a condução do lado esquerdo da via: provém dos tempos em que era perigoso darmos o lado desarmado aos cavaleiros com que nos cruzássemos, ao viajar pela estrada. Poderá não ser definitiva, mas é de todas as explicações que ouvi, a melhor.)
As histórias universais da luta entre o progresso desmesurado e a atenção devida ao lado mais calmo da vida, estão patentes e gritam, nesta cidade. Os bairros das formigas e os das cigarras, convivem lado a lado, e não deixam de se visitar, nem caem na tentação de mutuamente se ignorar.

É esse o espírito indefinível de Londres: histórias aduzidas da História, todas as culturas "derretidas" numa só e universal cultura, e o dilema de todas as civilizações: face a um problema, ter que decidir entre fazer algo ou não fazer nada. Há argumentos a favor e contra. Ao contrário do que possa parecer lógico, não fazer nada pode ajudar a resolver um problema (ou pelo menos a não piorá-lo), mais do que fazendo algo, só por questão de se fazer seja o que fôr...
Eu proponho que se faça algo, sim, para se resolver os muitos problemas com que nos deparamos, como indivíduos e como sociedade, mas não nos esqueçamos de fazer o possível para evitar os atropelos...
Haja trabalho, diligência, iniciativa, luta, desgarra e regateio, ao bater pontual e inefável das badaladas dos (vários) "Big Bens" - mas não se esqueçam de ir dar de comer aos pombos da escadaria da Catedral de S. Paulo: é barato ("only tuppence"), descansa e faz bem à alma, e...pode ser a qualquer hora! Pode demorar cinco minutos ou um dia! Pode ser repetido, continuado ou intervalado! Pode ser quando apeteça, mas que seja alguma vez!

Cheerio! That's the Spirit!

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