domingo, 24 de junho de 2007

Outro poema

A pedido de vários comentaristas, um poema - não novo, mas menos conhecido: a apologia da Cigarra - do poeta brasileiro Mário Pederneiras.

A CIGARRA E A FORMIGA

Dona Formiga
Pertence à classe das senhoras sérias,
Tem cuidado da casa e do alimento;
Não fala muito, muito pouco briga,
Tudo o que faz é com discernimento
E, enfim, não gosta de passar misérias.

Além de tudo, é de ambições modestas,
Todo o seu bem, no seu labor converte,
E faz da vida ideias esquisitas…
Não faz visitas…Não se diverte…
Nunca se viu Dona Formiga, em festas!
De tanto se ocupar da vida e do futuro
E tornar o labor mais sério e duro,
Chega a ficar grotesca e cómica!

Pois, mesmo assim, nos amplos e maçudos
Livros morais, de exemplos e de estudos,
Com que, da infância, o estímulo se apura,
Ela figura
Como um sólido exemplo de económica:
Trabalha muito no pesado Estio,
Porque receia
Que o Inverno venha achá-la desprovida.
Por isso, quando chega o frio e cessa a lida,
Já ela está...com a despensa cheia!

Dona Cigarra - essa? Coitada!
Não vale nada,
Entre as pessoas sérias!
É a pobre infeliz que dá lições de canto
E que o Verão inunda
A sua alma de estroina e vagabunda…
Entretanto, Dona Cigarra, eu sei - passa misérias.
É da boémia a mais perfeita imagem,
Adora a luz e mora na folhagem…
E tal a vida é, tal a aceita,
Sempre de sonhos e ilusões repleta…
Dona Cigarra, até parece feita…
Da própria massa, de que é feito o Poeta!

Passa o Verão… E o véu do Estio,
O tempo, sobre o Céu e a Terra corre;
Torna-se a Vida mais penosa e séria…!
Dona Cigarra não resiste ao frio
E coitadinha, morre…!
E morre, quase sempre, na miséria!

Contam, que um dia,
Morta, do Sol, a límpida alegria,
Sem luz para cantar,
Como fizera no Verão inteiro,
Fora à Formiga, em prantos, implorar
Um pedaço de pão do seu celeiro…
Como a Formiga, então lhe perguntasse,
Onde se achava e o que fizera,
Na estação passada,
Honestamente, …disse, que...cantava…!
Pois a malvada,
Sem dó da mísera mendiga,
Quase morta de fome e já sem voz,
Numa ironia desumana e atroz,
Mandou que ela dançasse…?!

Por isso, é que eu não gosto da Formiga!

Mário Pederneiras
in Ao Léu do Sonho e à Mercê da Vida, 1912

sábado, 16 de junho de 2007

DIA DE ANOS

Com que então caiu na asneira,
de fazer na quinta-feira,
vinte e seis anos! Que tolo!
Ainda se os desfizesse...
Mas fazê-los?... não parece
de quem tem muito miolo!
Não sei quem foi que me disse
que fez a mesma tolice,
ainda no ano passado...
Agora, no que vem, aposto,
como lhe tomou o gosto,
que faz o mesmo. Coitado!
Não faça tal; porque os anos,
que nos trazem? Desenganos!
Que fazem a gente velho;
faça outra coisa!...que em suma,
não fazer coisa nenhuma,
também lhe não aconselho.
Mas anos, não caia nessa!
Olhe que a gente começa,
às vezes por brincadeira,
mas depois, se se habitua,
já não tem vontade sua,
e fá-los, queira ou não queira!

João de Deus

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Hino ao Verão

O Verão está à porta,
O calor já chegou!
Tirem a roupa,
Abram os recantos,
Arejem os corpos e se possível as almas!
O ar aquece.
O verde amadurece em vermelho.
O sol abrasa e abraça.
Canta cigarra o teu hino!
Haja festa, patuscada, arraial e romaria.
Já lá vai o Inverno triste,
Haja lugar à alegria!