quinta-feira, 3 de abril de 2008

Um Anjo subiu ao Céu

Pessoas há que, por muito negra que seja a situação, conseguem sempre ver o lado humorado das coisas: são como anjos da alegria, felizes na sua missão de nos dar ânimo, nem que seja fazendo uso da imaginação e da fantasia. Minha Mãe era uma dessas pessoas. Confrontada com um cenário que poderia ser paradisíaco se não fosse de guerra, meteu as mãos à obra para "animar as hostes" e através da sua veia artística, deixou a sua marca na vida dos que defendiam as cores de Portugal (esse era o seu único móbil: cumprir o dever, defendendo a Pátria), na guerra de guerrilha contra a Frelimo, no norte de Moçambique, nas margens do Lago Niassa, em 1968. Quem por lá passou desde esse ano até 1974, conhece por certo este poster:


O seguinte texto foi publicado por baixo desta reprodução, na Revista da Armada nº 377 de Julho de 2004:
"Este belo cartaz elucida perfeitamente o engenho e a disposição dos muitos que, durante a guerra do Ultramar, serviram ou acompanharam a Marinha no Lago Niassa, em Moçambique.
Apesar das muitas amarguras decorrentes dos sacrifícios exigidos pelo isolamento das longas comissões e pela condição da guerra, também o bem humorado ambiente da família naval em Metangula, aqui e deste modo evidenciado, contribuía para a elevação do moral do pessoal, sempre apoiado na nossa tradicional amizade e camaradagem, requisitos indispensáveis para suportar dias tão difíceis.
Estas ironias e outras evasivas do género foram certamente importantes. Tudo servia para ajudar a minorar as inúmeras privações a que os marinheiros eram sujeitos, mas que, como militares, dedicadamente cumpriam o seu dever.
Em 1968, a Sra. Dona Rosa (Sra. Dona Rosita como ficou nas nossas memórias) esteve em Metangula em visita a seu marido, o saudoso Comandante Chuquere Gonçalves da Cunha e, para contribuir para o bom humor com que, nessa longínqua Base Naval, na margem do Lago Niassa, se procurava superar as dificuldades do dia a dia, pintou, e lá deixou, o quadro que ficou bem conhecido por todos os que por lá passaram.
Esse quadro que constitui uma espécie de ex-libris informal de Metangula, Comando da Defesa Marítima dos Portos do Lago Niassa, foi trazido para Portugal, quando da independência de Moçambique, pelo Dr João Malheiro, então 2TEN RN, que o apresentou, com grande satisfação de todos os presentes, por ocasião de um almoço de “Gente de Metangula” em 25/5/2003.
Mais de 35 anos passados foi com o maior gosto que, em 22/3/2004, o Dr. Migães de Campos (ex 2TEN RN MN) e o CALM Espadinha Galo foram, com saudade, oferecer à Sra. Dona Rosita, uma reprodução reduzida desse quadro que, durante anos, acompanhou quem esteve em Metangula."
Que Deus dê paz à sua alma.


In memoriam
Rosa Gallego Fraxenet Gonçalves da Cunha
1926-2008

2 comentários:

Pires Neves disse...

Carlos
Os anos passam, mas os bons momentos e os amigos sinceros estão sempre junto de nós, em qualquer tempo, em qualquer época.
Só o queria acompanhar, associando-me, nesta saudade enorme que, todos nós que os conhecemos e com eles tivemos o enorme prazer de conviver, nutrimos por sua mãe e pelo seu pai, o Comandante Chuquere. Servi com ele, na Madeira, concretamente em Porto Santo, no período 79-82, onde fui resposnsável pela edificação da 1ª Estação Militar de Comunicações de Porto Santo, mais tarde tida por Radio Naval de Porto Santo.
Muitas e boas recordações guardo desse período e deles os dois. Sua mãe foi como que uma "mãe" para mim, dada a forma carinhosa como que me tratou, numa altura em que adoeci, estando no Funchal, e seu pai me "obrigou" a ficar em vossa casa até recuperar. Bem haja por tanta amizade e sentido de camaradagem. Aqui fica o meu eterno reconhecimento.

Um abraço

João Pires Neves
Vice-Almirante REF

valdemarmarinheiro disse...

Sou de todos o maior priveligiado por ter partilhado com seu Pai em Metangula termpos inesqueciveis.
Era eu Marinheiro Radarista e já láme encontrava quando lá chegou.
Mais que um Militar Exemplar era um ser humano Fabuloso. Tive também ppodido acompanhar sua Mãe uma Senhora maravilhosa que transmitia felicidade e confiança. O Senhor pode orgulhar-se dos seus Pais. Guardo Gratas recordaçõers que minha memória não deixa que se apaguem. Obrigado por me ter recordado tempos maravilhosos.